Cem Anos de Mentira

No livro Cem Anos de Mentira de Randall Fitzgerald encontramos no capitulo 5 o seguinte texto:

 

A historia das inovações da medicina ocidental é extremamente curta, em comparação com as antigas tradições medicinais da Índia e da China. A palavra inglesa drug (droga ou remedio) deriva da palavra holandesa droog, que equivale ao verbo “secar” ( to dry, em inglês) – ação que era essencial ao processo de transformar plantas e ervas em preparações medicinais. Remédios patenteados e a industria farmacêutica evoluíram em épocas relativamente recentes, a partir da presunção de que combinações de ingredientes secretos poderiam se constituir em panacéias capazes de proteger seus usuários de todo tipo de sofrimento.

 

Registros históricos indicam que a primeira patente “real” de um composto medicinal foi concedida, pelas autoridades competentes, na Inglaterra, nos primeiros anos do século XVIII. Ao registrar uma patente, o inventor deveria revelar os ingredientes utilizados na confecção de seu remédio; por isso, muitos curandeiros optavam por registrar apenas o nome (ou seja, a marca comercial) com que batizavam suas poções – uma tática que os ajudava a preservar a aura mística em que envolviam suas criações, sempre rotuladas com nomes evocativamente exóticos. Por volta de 1750, mais de 200 dessas poções medicinais já estavam protegidas sob patentes e registros, na Inglaterra e suas colônias.

 

Os Estados Unidos constituíram-se na verdadeira terra das oportunidades para os vendedores de remédios patenteados, durante o século XIX, quando os medicine shows – espetáculos itinerantes que misturavam entretenimento circense com insidiosas técnicas de marketing, para vender beberagens que prometiam rejuvenescer ou restaurar a saúde de qualquer pessoa – atravessavam o país, de ponta a ponta. As “palestras” sobre saúde proferidas sobre carroças, em que consistiam esses espetáculos, viriam a dar origem, décadas depois, aos longos testemunhais transmitidos pelo radio, quando esse veiculo de comunicação substituiu as velhas carroças como principal meio de divulgação de novos produtos. Essas poções que curavam tudo eram genericamente conhecidas como “óleo de cobra”, e seus promotores de vendas como “vendedores de óleo de cobra”. O verdadeiro “óleo de cobra” – obtido a partir da gordura retirada desses repteis – era louvado por diversas tribos indígenas em virtude de suas supostas propriedades curativas e comumente vendido em feiras e espetáculos itinerantes como um santo remédio para tratar reumatismo, dores nas costas, dor de dentes ou qualquer outra dor que necessitasse de alivio.

 

A era de ouro dos vendedores de óleo de cobra desviou-se de seu rumo no caminho para a respeitabilidade em 1905, quando a então prestigiosa revista Collier’s iniciou a publicação de uma serie de artigos expondo e atacando ” A Grande Fraude Americana”, acerca dos registros de patentes de remédios e de sua verdadeira eficácia. Uma conseqüência direta dessa celeuma foi a instauração de Decreto sobre a Pureza dos Alimentos e Remédios, que, aprovado pelo Congresso, entrou em vigor em 1906 e obrigou muitos curandeiros e fabricantes de beberagens a encerrarem seus negócios – ou, ao menos, compeliu-os a minimizar suas promessas publicitárias. Porém, mesmo sob a vigência dessa lei, os fabricantes de drogas e alimentos processados ainda não eram obrigados a comprovar a segurança do consumo de seus produtos antes de oferecê-los à venda. O ônus da prova quanto à alegada insegurança dos produtos cabia ao governo, antes de providenciar para que fossem retirados do mercado.

 

Dois desdobramentos dessa historia foram particularmente significativos para a transformação da industria farmacêutica dos Estados Unidos no sistema multitentacular em que ela consiste, hoje em dia. Em 1946,  os fabricantes de drogas norte-americanos começaram rotineiramente a patentear, em vez de apenas registrar individualmente, as drogas e seus ingredientes químicos, pratica que, até então, vinha sendo evitada para que as companhias conservassem uma imagem de procedimento comercial ético aos olhos dos consumidores. Patentear individualmente as diversas combinações quimico-moleculares permitiu a certos fabricantes forçarem seus concorrentes a se dobrar ante seus desígnios e a manter os preços de suas drogas artificialmente elevados.

 

Um segundo desdobramento, igualmente importante, deu-se cinco anos depois, quando o Congresso aprovou uma lei requerendo que os consumidores obtivessem prescrição medica antes de adquirir certas drogas farmacêuticas. Essa lei criou um casamento de conveniência entre a industria da medicina e a industria farmacêutica.

 

Esses desdobramentos, por sua vez, produziriam o fenômeno que viria a se tornar conhecido como “obsessão pela bala mágica”. Isto é, a tentativa de concretização da idéia – ou, mais precisamente, do mito – de que, se fosse possível isolar os compostos químicos ao nível molecular mais simples, poderiam ser descobertos os melhores agentes curativos, ou “balas”, para tratar os vários males e doenças. Ainda que possa funcionar na prática com algumas novas drogas, por curtos períodos, essa fixação na descoberta de uma cura isolada ignora todos os princípios holisticos e sinérgicos. A longo prazo, os resultados desse tipo de terapia nos conduzem, com freqüência, a custos médicos mais elevados e a uma reduzida margem de segurança para a manutenção da saúde.

 

Freqüentemente, as novas drogas que chegam ao comercio apresentam mudanças em apenas uma simples molécula. Em 2002, das 78 drogas aprovadas pela FDA – Foods and Drugs Administration – apenas 17 continham algum novo ingrediente ativo, em nível molecular, e apenas sete dentre as drogas desse ultimo grupo – segundo a própria FDA – representavam, na verdade, alguma melhoria em relação às drogas já comercializadas para finalidades similares.

 

Agora, em face dessas estatísticas, somemos o fato de que os cidadãos norte-americanos de meia-idade tomam mais de uma dúzia de drogas vendidas sob prescrição medica por dia, em media. Assim, entenderemos porque as vendas de drogas sob prescrição medica mais do que triplicaram, nos Estados Unidos, entre 1980 e 2000, movimentando 200 bilhões de dólares anualmente – soma que representa a metade das vendas de drogas sob prescrição medica no mundo inteiro!

Em 2002, a soma dos lucros das dez maiores companhias farmacêuticas norte-americanas foi maior do que a soma das restantes 490 corporações listadas pela revista Fortune como as 500 maiores empresas do país.

 

O uso de qualquer droga como uma bala mágica provoca “efeitos colaterais” sobre nossos corpos, nossa saúde e nossos bolsos. Melvin Konner, em seu livro pioneiro, Medicine at the Crossroads ( Medicina na Encruzilhada), descreve alguns dos perigos das balas mágicas da seguinte maneira: ” Mais importante do que os efeitos colaterais, mais importante até do que a evolução da resistência [à eficácia das drogas] é um resultado indireto do ponto de vista das balas mágicas: a negligencia quanto às condições que tornam a vida dos micróbios mais fácil, e que enfraquecem a disposição do organismo contra as invasões”.

 

As condições que tornam mais fácil a vida dos micróbios, resultando em males e doenças, começam pelo enfraquecimento do sistema imunológico humano, em razão da nutrição inadequada e da devastação causada pela carga corporal de toxinas químicas sintéticas. Se adicionarmos a isso os efeitos causados pelas dosagens excessivas e pela possível dependência de drogas, teremos o ciclo vicioso que alimenta a indústria médica-farmacêutica enquanto dilapida nossos próprios recursos.

 

“Vamos iniciar a desmedicação dos Estados Unidos” era o titulo da matéria de capa de uma edição, publicada em 2004, da revista Forbes, que descrevia o mais novo inimigo da indústria farmacêutica: um estilo de vida mais limpo e simples.

 

Se você tem enxaquecas e toma drogas farmacêuticas para aliviar os sintomas, o que essas drogas podem fazer para eliminar a causa das dores? Todos sabemos a resposta. Tudo o que as drogas farmacêuticas fazem, na melhor das hipóteses, é aliviar temporariamente os sintomas, para ganhar tempo, até que os nossos próprios sistemas imunológicos – caso não estejam muito comprometidos – entrem em ação e nos curem de nossos males.

 

A dádiva que recebemos da natureza é o nosso sistema imunológico, uma linha de defesa altamente especializada no combate às doenças, que garante nossa saúde e ocorre naturalmente, desde o nascimento. O antigo médico Hipócrates, considerado o pai da medicina ocidental, talvez não tivesse certeza da existência do sistema imunológico, embora ele o conhecesse intuitivamente, como demonstra sua afirmação de que “a força curativa natural que possuímos dentro de cada um de nós é a maior força com que podemos contar para curar a nós mesmos”.

 

As substancias químicas e sintéticas, sejam legais ou ilegais, podem danificar o nosso sistema imunológico de duas maneiras: impedindo sua ação ou superestimulando-o. Quando o sistema imunológico é impedido de agir, criam-se as condições para o desenvolvimento de males como a gripe, ou doenças como o câncer; quando ele é superestimulado, são causadas as reações alérgicas e os distúrbios sistêmicos auto-imunes.

 

Muitos de nós já atravessamos períodos extremamente estressantes, dos quais emergimos com um resfriado ou outro mal qualquer; conhecemos, portanto, por experiência própria, o impacto que o estresse pode causar sobre nossos sistemas imunológicos. A combinação entre o estresse a que a vida nos submete e os desgastes provocados pela carga de substancias químicas à qual nossos corpos estão expostos, somados a uma nutrição deficiente e ao abuso de drogas legalmente prescritas, é uma formula infalível para uma falência do sistema imunológico e para o desenvolvimento de problemas crônicos de saúde.

 

Em nossa cultura, as emergências medicas e os sintomas dos males e doenças que nos afligem são tratados relativamente bem a curto prazo, graças aos notáveis avanços médico-científicos. Todavia, fracassamos escandalosamente quando se trata de prevenir esses mesmos males e doenças, e de compreender a importância de utilizar nossa dieta para fortalecer nossos sistemas imunológicos.

 

Recentemente alguns livros tem buscado esclarecer este assunto tais como:

Lugar de Medico é na Cozinha – Alberto Peribanez Gonzalez

Superimunidade – Joel Furhman

Barriga de Trigo – William Davis

Amigos da Mente – David Perlmutter

Alimento: O melhor remedio para sua saude – Jean Carper

Anti-Cancer – David Servan-Schreiber

Entre muitos outros.

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