Edward Bernays e a Engenharia do Consentimento

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A Engenharia do Consentimento – Daniel C. Ávila.

http://www.ip.usp.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=1927:v3n1a09-a-engenharia-do-consentimento&catid=340&Itemid=91

Em 2002 a BBC transmitiu uma serie de documentários a respeito da recepção e da aplicação das teorias de Sigmund Freud nos Estados Unidos e Grã-Bretanha. The Century of the Self pretendia expor de que maneira as ideias do fundador da psicanálise haviam sido exploradas não apenas por médicos e psicólogos, mas também por organizadores de campanhas e políticos, afetando a representação de democracia com noções como inconsciente, desejo e neurose. Segundo seu produtor, Adam Curtis, seria uma “serie sobre como aqueles no poder na América pós-guerra usaram as teorias de Freud sobre a mente inconsciente para sujeitar e controlar as massas”.

Com capítulos dedicados aos herdeiros da psicanálise no mundo anglo-saxão como Wilhem Reich e Anna Freud, além de contar com a participação periférica de outros psicanalistas importantes como Ernest Jones e Ernst Federn, a serie também apresentou um personagem geralmente desconhecido pelo publico não especializado: Edward Louis Bernays, sobrinho em segundo grau de Freud.

Em 1917, quando os EUA declararam guerra à Áustria e aos outros países da Tríplice Aliança [Primeira Guerra Mundial], Bernays foi convidado a participar do Comitê de Informação Publica, órgão criado pelo governo norte-americano com o objetivo de divulgar para a população o esforço de guerra em promover a democracia em todo o mundo. Com apenas 27 anos, ele integrou a comitiva que acompanhou o presidente Woodrow Wilson na conferencia de paz em Paris, atestando seu desempenho excepcional no contato com o publico.

No retorno aos EUA, Bernays se perguntou se a propaganda, tão efetiva nos tempos de guerra, poderia ser usada também durante a paz. Assim, chegando a Nova York passou a oferecer às empresas norte-americanas seus serviços de Relações Publicas [ Public Relations], profissão que ele recém inventara.

Bernays propunha que as Relações Publicas poderiam empregar as ideias da psicanálise na solução de problemas de consumo que surgiam na florescente sociedade industrial que brotava no pós-guerra.

Bernays fez os livros de Freud serem publicados como também se tornou um “agente” de Freud, promovendo e divulgando-os “fazendo-os polêmicos”, e tornando a psicanálise conhecida e aceita junto a sociedade norte-americana.

Os livros de Bernays, bem como os textos ditos sociológicos de Freud, passaram a ser lidos não apenas pelos grandes empresários e publicitários norte-americanos. Eles prontamente influenciaram jornalistas e intelectuais, e fomentaram discussões a respeito da capacidade das massas em participar dos processos políticos sem se comportar como uma turba incontrolável.

Bernays acreditava poder convencer as massas a abandonarem sua agressividade primaria e perseguirem um fim socialmente desejável, em um governo sintonizado com suas necessidades de consumo e de felicidade. Livrando as pessoas das frustrações diárias e controlando o desejo irracional por meio da “engenharia do consentimento”, os políticos e empresários eliminariam ao maximo as perturbações sociais, soterrando-as sob um constante bem-estar e prazer. Ele definiu esse modelo da sociedade como Democracity, a cidade verdadeiramente democrática, uma utopia da liberdade e do capitalismo.

A Democracity foi apresentada ao publico na Feira Mundial de Nova York em 1939, na forma de um imenso edifício de forma esférica, na qual era exibida uma maquete futurista da sociedade norte-americana, elaborada pela General Motors. O evento foi um sucesso de publico, atraindo mais de 44 milhões de pessoas.

Muitas atuações de Bernays foram alvo de severas criticas. Suas obras, ademais, foram empregadas em diversos fins que o próprio Bernays não esperava. Ele teria ficado chocado, por exemplo, ao descobrir que Goebbels[ ministro da Propaganda de Hitler] lera Crystallizing Public Opinion – publicado em 1923- para planejar o extermínio dos judeus da Alemanha nazista e aumentar o apoio da população alemã a tal atrocidade.

Massa e Poder

Massa e Poder é o título de um livro de Elias Canetti, onde pode-se ler o seguinte:

A Escravidão

O escravo é uma propriedade como o gado o é, e não como uma coisa inanimada. Sua liberdade de movimentos lembra a de um animal ao qual se permite pastar e fundar algo como uma família.

O verdadeiro caráter de uma coisa é sua impenetrabilidade. Ela pode ser chutada e empurrada, mas é incapaz de armazenar ordens. A definição jurídica do escravo como coisa e como propriedade é, pois, enganosa. Ele é um animal e uma propriedade. É antes como um cão que se pode comparar um escravo. O cão capturado foi retirado de sua matilha: foi isolado. Está sob as ordens de seu dono. Abre mão de suas próprias iniciativas, na medida em que estas contrariem tais ordens, e, como recompensa por isso, é por ele alimentado.

Alimento e ordem possuem assim, tanto para o cão quanto para o escravo, uma mesma fonte – seu dono -, e, nesse sentido, não é totalmente inadequado comparar-lhes o status ao das crianças. O que, porém, os diferencia destas tem a ver com a maneira como administram as metamorfoses. A criança exercita todas as metamorfoses das quais, mais tarde, possa vir a precisar. Nesses exercícios, os pais a ajudam e, com os novos desafios, estimulam-na sempre a novos jogos. A criança desenvolve-se em muitas direções e, uma vez tendo adquirido o domínio sobre suas metamorfoses, é, como recompensa, acolhida numa categoria mais elevada.

Com o escravo acontece o contrario. Assim como o dono não permite ao cão caçar o que quiser, mas restringe o âmbito dessa caçada segundo o que melhor lhe aprouver, assim também retira do escravo as metamorfoses que este desenvolveu. O escravo não pode fazer isto ou aquilo; certos afazeres específicos, porém, ele tem de repeti-los, e quanto mais monocórdios estes forem, tanto mais seu senhor os destina a ele. Enquanto se lhe permite realizar os mais diversos afazeres, a divisão do trabalho não representa perigo para o modo como o homem administra suas metamorfoses. Mas, tão logo ele é restrito a uma única tarefa, devendo, ademais realizá-la com a máxima eficiência no menor tempo possível – ser, pois, produtivo -, o homem se torna aquilo que verdadeiramente se definiria como escravo.

Desde o principio, deve sempre ter havido duas espécies bastante distintas de escravos: uns atrelados exclusivamente a um único dono, como os cães domésticos, os outros reunidos feito os rebanhos no pasto. Tais rebanhos, certamente há que se considerá-los os mais antigos escravos do homem.

O desejo de transformar homens em animais constitui o mais forte impulso para a propagação da escravidão. Não há como superestimar a energia desse desejo, bem como a do desejo contrário: o de transformar animais em homens. Tão logo os homens conseguiram acumular tantos escravos quanto o número de animais em seus rebanhos, estavam lançadas as bases para o Estado e o despotismo, e não pode haver dúvida de que o desejo de transformar um povo inteiro em escravos ou animais faz-se tanto mais forte no soberano quanto maior o número de pessoas que compõem esse povo.

Devemos relembrar a citação de Edward Bernays no seu livro “Propaganda”:

“A consciente e inteligente manipulação dos hábitos organizados e opiniões das massas é um importante elemento na sociedade democrática. Aqueles que manipulam este despercebido mecanismo da sociedade constituem  um governo invisível que é o verdadeiro poder regulador de nosso país… Nós somos governados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos formados, nossas idéias sugestionadas, largamente por homens de quem nunca ouvimos falar.  Isto é um resultado lógico do caminho em que nossa sociedade democrática é organizada. Vasto número de seres humanos devem cooperar desta maneira se eles tem que viver juntos como uma sociedade que funciona sem dificuldades… Em quase todo ato de nossas vidas diárias, tanto na esfera da política ou dos negócios, em nossa conduta social ou em nosso pensamento ético, nós somos dominados por um número relativamente pequeno de pessoas…que entendem o padrão de processo mental e social das massas. São eles que puxam os fios que controlam a mente do público.”

A influência de Edward Bernays, desde 1913 ,quando começou a atuar na política americana e inglesa e junto as grandes corporações americanas , é tão grande, que seria necessário escrever um livro apenas sobre este assunto. Ele escreveu diversos livros sendo um deles – Propaganda (1928) – disponível livremente na internet.

Ele foi considerado um dos homens mais influentes do século XX porém pouco se ouve falar dele.

Recomendo assistir os seguintes filmes:

Edward Bernays – Father of Modern Propaganda


The Invention of Public Relations


Filme The Century of The Self

Original em inglês – completo Duração: 3h55min


Filme “The Century of The Self” dividido em 4 Partes

Legenda: Português / Nome em português: Filme O século do Ego

Parte 1: Máquinas de Felicidade.


Parte 2: A engenharia do consentimento.


Parte 3: Há um policial dentro de nossas cabeças. Ele deve ser destruído.


Parte 4: Oito pessoas bebendo vinho em Kettering.


As idéias de Edward Bernays foram ativamente aplicadas por grandes corporações americanas em especial aquelas ligadas a familia Rockefeller.

Os Rockfellers tiveram uma grande influencia nos rumos do ensino atraves do General Board of Education  e em especial na medicina dos Estados Unidos e Europa através da sistematização do ensino da medicina nos anos 1910 em diante.

No site Dr. Rath Health Foundation ( disponível em diversas línguas inclusive português), existe um histórico sobre esta influencia com acesso a diversos livros onde destacam-se:

The Crime And Punishment of I.G. Farben by Joseph Borkin

Desde 1938 até 1946, Joseph Borkin foi o chefe da seção de Cartel e Patente da Divisão Antitruste do Departamento da Justiça em Washington e foi responsável pela investigação de guerra e pelos processos contra os cartéis dominados pela I. G. Farben.

Durante a guerra, publicou o Plano diretor da Alemanha que levou  a  Associated Press a dizer: “Joseph Borkin provavelmente sabe mais sobre a I. G. do que ninguém do lado de fora dela”.

Desde 1946, o Sr. Borkin praticou Direito em Washington e escreveu numerosos livros e artigos. É o presidente do Federal Bar Association’s Committee on Standards and Judicial Behaviour, conferencista na Escola  de Direito Catholic University e diretor da Fundação Drew Pearson.

 

IG Farben (abreviatura de Interessen-Gemeinschaft Farbenindustrie AG) (associação de interesses indústria de tintas SA) foi um conglomerado de empresas formado em 1925 e de certa forma mesmo mais cedo, durante a Primeira Guerra Mundial.

A IG Farben deteve um monopólio quase total da produção química na Alemanha Nazista. Durante seu apogeu IG Farben foi a quarta maior empresa do mundo, depois da General Motors, U.S. Steel e Standard Oil Company ( propriedade da familia Rockefeller) . Farben em alemão significa: “tintas”, “corantes” ou “cores” e inicialmente muitas destas empresas produziram tinturas, mas em breve começaram a dedicar-se a outros setores mais avançados da indústria química. A fundação da I.G.Farben foi uma reação à derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial. Antes da guerra, as empresas de tintas alemãs tinham uma posição dominante no mercado mundial, que perderam durante o conflito. Uma solução para reconquistar essa posição foi através da fusão.

A IG Farben consistia das seguintes principais empresas: AGFA, Casella,BASF, Bayer, Hoechst, Huels, Kalle e várias outras, menores.

Durante o planejamento da invasão da  Polonia e Checoslovaquia a IG Farben cooperou com os oficiais nazistas.

A IG Farben construiu uma fábrica para a produção de óleo sintético e borracha (a partir do carvão) em Auschwitz,  que foi uma pedra basilar no início da atividade da SS neste local durante o Holocausto. No auge, em 1944, esta fábrica fazia uso de 83.000 trabalhadores escravos. O pesticida Zyklon B, para o qual a IG Farben detinha a patente e que era usado nas câmaras de gás para o assassínio massivo, era fabricado pela Degesch (Deutsche Gesellschaft für Schädlingsbekämpfung), uma empresa detida pela IG Farben.

Dos 24 diretores da IG Farben acusados no Julgamento IG Farben perante um tribunal militar americano nos Julgamentos de Nuremberg, 13 foram condenados a prisão, entre 1½ e 8 anos. Outros diretores da I.G. Farben também foram julgados, mas os afiliados americanos da I.G. Farben e os diretores americanos da própria I.G. foram caladamente esquecidos; a verdade estava enterrada nos arquivos.” (Wall Street and the Rise of Hitler, Sutton, pg 33)

Devido à gravidade dos crimes cometidos pela IG Farben durante a Segunda Guerra Mundial, a empresa foi considerada demasiado corrupta para continuar existindo. A União Soviética aproveitou a maior parte dos ativos da IG Farben localizados na zona de ocupação soviética, como parte de seus pagamentos de reparação pelos danos da guerra. Os aliados ocidentais no entanto, em 1951, dividiram a empresa em sua versão original até as empresas constituintes. Atualmente só a AGFA, a BASF, Hoechst (Conglomerado Sanofi-Aventis) e a Bayer continuam existindo.

O livro de Borkin trata basicamente do relacionamento entre a Standard Oil ( dos Rockfellers) e a I.G. Farben ressaltando a aliança entre as duas firmado em 1925, com a I.G.Farben atuando no continente americano e a Standard Oil construindo refinarias na Alemanha, o que lhe permitiu acesso ao mercado europeu e suas colônias a nível mundial.

Outro livro citado no site dr Rath Health Foundation é:

Rockefeller Medicine Men – Medicine & Capitalism in America | by E. Richard Brown

Quando o livro foi publicado pela primeira vez em 1979, resultou ser um trabalho controvertido. Passando em revista a história da medicina desde 1962 até 1982, Ronald L. Numbers chamou-o “a história médica mais controvertida da década passada”. Parte da controvérsia gerada pelo livro vem da sua abordagem social e histórica da medicina. O corpo crescente de histórias sociais do serviço de saúde desafia a perspectiva do “grande médico”  que por muito tempo dominou a história da medicina.

No seu livro, E. Richard Brown descreve a  política econômica do cuidado de saúde, integrando material de várias disciplinas – economia, sociologia, ciência política, epidemiologia, história e política social

Os princípios de influencia e manipulação criados por Edward Bernays, aplicados amplamente pelas corporações ao longo da segunda metade do século XX, fizeram com que elas passassem a ter uma influencia muito forte nos governos de diversos países.

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